Futuro da literatura

fósforo

 

 

O palestrante convidado para falar a respeito de como a literatura pode se relacionar com novas mídias, um tema que começava a dar sinais de exaustão mas prosseguia sendo agendado para todos os encontros, feiras, congressos, bienais, enfim, sempre que escritores eram chamados para propagandear ideias e textos para públicos cativos ou potenciais. A certa altura da exposição, o palestrante sugeriu que se escrevesse um texto na tampa de uma caixa de fósforos. Pensei em duas coisas. A primeira era que para alguém convidado a falar a respeito de novas tecnologias, a metáfora da caixa de fósforos parecia algo deslocada. A outra foi que não seria má ideia, no fim das contas. Usa-se a tampa da caixa de fósforos, escreve-se sobre o papel com as informações sobre marca, fabricação etc., depois acende-se um deles e coloca-se fogo da caixa, impedindo a posteridade de ler o tamanho da bobagem que custou afinal tão pouco espaço para ser perpetrada.

 

Legado das letras

girafa-neve

 

 

Era um escritor com muita coisa a dizer e poucos ouvintes, ao contrário dos que têm pouco a dizer e legiões por audiência. “Seu problema é ácido”, dizia um amigo, sem qualquer intenção de subtexto. “Suas palavras, farpas”, ajuntava outro. O que muita gente quer é que lhes derramem mel nos ouvidos, portanto não te prestam atenção. Agreste, destemperado, os textos lhe refletiam as ideias mais do que a existência, que passava entre livros e debates. “Se sua vida se desmoronasse”, sugeria um. “Alguém te recolhesse bêbado a cada noite numa sarjeta diferente”, indicava outro. “E depois você se recuperasse, como quem volta dos mortos, a aura de sofrimento redimido é sempre uma opção interessante”, avaliava o mais cínico dos amigos. “Ou as glórias editoriais te cobrissem de ouros e louros”, adicionava em rima um sexto. “Trezentas entrevistas, convites em chuva, sua opinião sobre a fúria dos ciclones e o futuro das nações”, as variantes eram sugeridas, os cenários desenhados no mapa, queriam ajudá-lo. “Sua cota de carisma é normal demais, nem te falta algum como tampouco te sobra o que seria bastante para que esses desenhos virassem realidade”, diagnosticou aquele outro. O escritor levantava as laterais do braço para baixá-los em seguida e escrever que deu de ombros, contrição e honradez como bússola. Gosto amargo na boca levado adiante pela conduta estoica, embora às vezes sinta comichões de afogar o dissabor em desmesuras alcoólicas. Fingia lhe bastarem o convívio com personagens e histórias saídas da invenção. A falta que sentia de leitores seria recompensada, se fosse, pela posteridade não desfrutada, quando na conta das ideias não faz mais diferença a equação do carisma. Enquanto isso conversa com Becketts, Roths, Bellows, Sternes, Machados, como se fossem convidados do chá. Algum conselho, senhores?, demanda, mas, macacos velhos, sorriem entristecidos e nada dizem. Sobre certos assuntos, alguém recorre a Wittgenstein, é melhor calar. A última recompensa dos persistentes é o futuro, aforisa um deles, difícil precisar quem. O anúncio do silêncio sempre deve ser feito com palavras, é o que se sabe, o escritor acha que foi de Fernando Pessoa este comentário, ou de uma de suas variantes. A solidão é a solidez do escritor, vaticina. Hora de oferecer mais chá, o escritor pensa, e também: nessas companhias o que não senti foi solidão. Faz um conto em que consegue ser lido por esses que julga seus pares e, mais do que empáfia profissional ou despeito, recebe ponderações e elogios. Literatura é feroz, ele sabe, mas se disfarça muito bem de elegância, esse que é um dos principais trajes. O escritor cria um personagem, francamente inspirado em si, que anota contos parecidos com os Robert Walser e os de Lydia Davis, mais na economia de palavras do que nos conteúdos. Termina todas as histórias com a única e mesma palavra, que ele julga ser uma das mais expressivas da literatura, pelo que tem de potencial explosivo e de silêncio, de aposta: continua…

 

Desaforismos (segunda temporada): 34

mergulho

 

 

340. O plano mirabolante da educação brasileira: ensinar todos a detestar literatura. O pior: vem conseguindo excelentes resultados.

341. Um espelho cuja imagem está sempre em atraso.

342. Dividir o copo, multiplicar a sede.

343. Qual a metáfora para metáfora?

344. Por que procurar outro dentro de si? Não parece haver uma roupa existencial com a sua exata medida.

345. Noite é a camuflagem do dia.

346. O verso perfeito nunca pode ser enunciado.

347. Amor é embarcação fadada ao naufrágio —- viagem que se inicia porque se desconhece o destino.

348. Me desminto sobretudo quando afirmo.

349. O que se revela é o que já se sabia e apenas isso. Surpresa é fingimento.

 

Amor e poesia

Arte | Agnes Cecile

Arte | Agnes Cecile

 

 

Então um dia ela embarafustou que queria descobrir o dia da semana em que tinha nascido. “Mas para que serve isso?”, perguntei. Ela revirou os olhos. “Você é um insensível, Arnaldo.” Aquele comentário doeu. Eu era poeta, devia ter o ouvido afinado para minúcias, era supostamente obrigado a compreender de forma imediata os motivos pelos quais ela queria saber o dia da semana em que tinha ocorrido o seu nascimento. Mas a poesia —- ou a ausência dela, cada vez maior, no meu caso —- tinha feito de mim um sujeito cético. Era empurrado contra a vontade em direção ao real cada vez com mais força e sei que ele é árduo e trata todo mundo por igual. Minha paciência com Dora estava tão escassa quanto a poesia que eu tinha nas veias e comecei a desenvolver a teoria segundo a qual no dia em que Dora saísse de minha vida ia levar na bolsa a última cota de poemas que escrevi. Depois disso eu estaria curado. Me ocorreu que se ela queria saber o dia da semana em que tinha nascido para poder ir embora no mesmo dia aquilo talvez me pudesse render um último punhado de versos tão bonitos quanto infelizes. Afinal, é disso também que se trata a poesia, da beleza da infelicidade.

 

Como vão os escritores

guarda-chuva-vermelho

 

 

1

Os escritores sempre se dão bem. Escrevem sobre crises, problemas, confusões e tudo isso é o que também os leitores têm em suas vidas e portanto procuram nos livros conforto ou solução ou, na hipótese mais modesta, pelo menos compreender que não estão sozinhos com os próprios dramas, mapeados de forma tão competente no texto.

 

2

Os escritores sempre se dão mal. Expõem em público as inquietações, problemas existenciais, as confusões em que se metem e o modo estranho e peculiar com que enxergam o mundo e depois, quando os leitores os ignoram ou buscam os concorrentes mais habilidosos, embriagam-se e se queixam aos amigos que ninguém nesse planeta perdido entre galáxias é capaz de compreendê-los.

 

Sem resposta

Ilustração | Edouard Manet

Ilustração | Edouard Manet

 

 

O que estamos fazendo aqui nesta história?, perguntaram, quase em uníssono. Ora, o que todos os personagens fazem nas histórias, eu respondi, vivendo a ficção. Mas passa da hora de reagir, alguém acrescentou, não sei se eu ou se eles, os gêmeos siameses. Tenho certeza, no entanto, de que a próxima frase foi um deles que disse, o da esquerda. Nossa vida inteira parece uma grande ficção, não precisamos mais uma. Eu ia começar a dizer que minha vida inteira também parecia, mas diante da situação deles pareceu ridículo dizer qualquer coisa e me calei.

 

A bola e o improviso

corrida

 

 

Nenhum esporte é tão fascinante, ele disse. São todos de conquista e manutenção do território. Acenei com a cabeça, concordava até ali. Ele continuou, com a voz ponderada de quem fala uma verdade absoluta e incontestável. No futebol, por mais bem treinado que você esteja, o acaso tem um papel fundamental, o improviso, um jeito, uma coisa, um lance que pode definir a partida é sempre passível de acontecer e não necessariamente para o melhor time. É o mais democrático dos esportes, ele disse. Um time de várzea pode ganhar de um time grande. Gostamos disso, ele disse, usando um plural que não sei se apenas me incluía ou se ao mundo inteiro, gostamos do caos misturado ao cosmos, dessa confusão inesperada. No futebol, é como se os deuses realmente mostrassem a cara e o humor do dia. No resto da vida isso não acontece, mas dentro do campo, sim. Faltou um a defesa encerra o caso, para concluir. Eu achava que ele estava certo. Menos na parte dos deuses, não gosto dessa ideia de uma intervenção de outra ordem. O caos somos nós, pensei em dizer, incluindo a ele e a todo mundo no meu plural. Mas pensei melhor, não queria ficar discutindo aquilo o dia todo.